Sexta-feira, Novembro 21, 2008

a mãe morreu

com ela, a infância

êxodo

se olharmos só para as árvores, parece outro país

Cafeteira

Depois vem a explosão - tudo o que ferve e borbulha, rebenta agora. Como leite que ferve. Aquece. Começa a subir, fazendo espuma. No outro lado da casa ouvimos já um chiar baixinho, imperceptível. Vai transbordar. Quando se toca na parte de fora tudo arrefece, expandindo-se; perde a tensão: a desordem, que se veio e que agora encosta a cabeça no chão. O fim das coisas é o orgasmo mais masculino de todos. Agora, nada.
As crianças puxadas a ferros são mais felizes, porque enchem, servem para ocupar, e fazem-no bem.
Hoje vesti uma saia da mãe, azul escura, azul petróleo, segundo consta. Por norma só as temos de tecido moles, que nos esticam as pernas. Um saia de sarja, pelo joelho. Os movimentos são todos ali, uma perna cola-se na outra e não se podem separar. Existe um prazer antigo, de controlar o tamanho dos passos, de sentir as coxas abraçadas. Só se mexe a parte da perna que está abaixo do joelho. Aos bocadinhos chega-se a casa, num passeio rápido, como só tivéssemos apenas dois ou três minutos, da noite inteira, para falar. Bate com os joelhos na saia e baixa-se para apanhar água do aspersor, com a qual molha a boca.
Amanhã, as sete horas, partimos para a jornada como se fossemos alguém a lutar por alguma coisa, quando não passamos de bichos, tão inactivos, indolentes, rotineiros.
O abstracto. O inexistente. Fala-se da vida da avó, porque a nossa morreu.

Sonambulismo

Quantos movimentos introdutórios me dás? Enquanto pensas sinto qualquer coisa a pulsar-me no estômago, e não sei o que é. Não podia arrastar o chão inteiro, mais tudo o que lá estava em cima. Se ouvir isto oitenta e quatro vezes, achas que morro? Se isto for um império, quantos anos me dás? Se tiver um império, deixas-me ouvir mais?
Prometo não fazer birras se fizeres pouco barulho quando for tarde. Dou-te o meu império. Ficaria feliz por ti, mas tu já não existes, por isso não podes possuir terra. Achas que se a comeres podemos viver outra vez? Experimenta. Não cerres os dentes, ajudo-te a engolir.
Por baixo de mim não há cama nenhuma, é tudo imaginário. Por isso não estou aqui. Uma cama vazia assustaria a mãe. Nenhuma cama deixa-a pensar que não tem filhos. A cama não existe sem mim. Ás vezes podia jurar que oiço anfíbios a encherem-me o quarto durante a noite. São muitos e multiplicam-se sem qualquer contacto entre si. Cada ser vomita outro. Apenas um. São já suficientes para me assustar. Tenho medo que sem a cama aqui possam subir por mim acima e vomitar os filhos, pensando eles que sou alguma zona segura para deixar ovos, esquecidos de que sou eu mesma que os vou matar.
Quero desfazer-me deles. Quantas vezes posso apanhar isso?
A avó, enquanto hóspede sente-se incomodada com as luzes do modem, que piscam. Tem por costume, quando cá vem, cobri-lo com uma peçita de roupa, para se poder deixar dormir. Eu não sou de manias. Assim está e assim há-de ficar. Hoje incomoda-me um pouco. Hoje precisava de descansar. Aquietar-me e dormir. Hoje descobri que não sou uma pessoa assim tão má, mas isso não me deixa especialmente feliz. Esta espécie de revelações faz-me sentir presunçosa, sensação sem fundamento. Cá em casa todos me põem muito em causa. Por vezes perco os meus padrões e uso só os deles. Percebo, em raros momentos de lucidez que eles têm um péssimo gosto. Realmente terrível. Acho estranho como me submeti a tal coisa. Hoje carrego no ouvido e ele faz uma espécie de clique, o que me deixa assustada, com algum medo que a otite me tenha afectado a audição. As dores das coisas que ficam na cabeça, como dores de ouvidos, dentes e afins, dão-me cabo do juízo. Fico intratável. Queria arrancar a cabeça e mordê-la, com imensa força. Abocanhar todo meu recheio craniano, para me encher a barriga e passar a ter um estômago muito cerebral. Há uns tempos deixei de comer iogurtes e fruta a meio da noite e sinto muita falta. A fruta e os iogurtes não são excepção. Perdi um ouvido. Não tenho dentes. Toda a minha cabeça se esvaziou.

A talhada

O corta-unhas é para crianças. Eu cá uso os dentes.

Dedicava longas horas a tirar as cutículas. Incomodavam-na muito, porque nunca conseguia deixá-las totalmente limpas de tinta. O que mais a irritava era gostar das unhas quadradas, e ter de ouvir dizer, constantemente, que as unhas se cortavam redondas.
Um dia cortou às escondidas. Quadradas. Ficou feio e desistiu.
Se tivesse mais do que um dedo haveria de desenhar muito.

Alegoria com pretensões humorísticas

Um atum diz para o outro:
- Vamos passear?
- Não posso. Estou encharcado.

A natureza fez-nos assim. A nossa espécie não é aleatória.
Para o pequeno atum, com amor.

Mira, o teu rapaz


Central, a Suíça de Queluz

Desde que proibiram as gentes de fumar isto anda às moscas. Conto oito. São com certeza oito moscas. De qualquer forma, mesmo que não sejam, isso não me parece relevante, porque apenas me quero entretida. Desde que haja uma, pelo menos posso contá-la, e se nenhuma houver melhor ainda, mais trabalho tenho a procurar. Agora abundam as moscas e os velhos. Nada que se compare ao rio de vida trazido pelos jovens que esvaziavam as cabeças no liceu. Queluz é uma garrafinha sob vácuo, um antro de gente vazia. Jovens e velhos. Plop, faria Queluz se o abrissem. Nós não fizemos barulho algum enquanto se pôde fumar no central, mas às vezes os velhos ficavam chateados com a nossa presença. Agora estão muito sossegadinhos, até estranham o silêncio. Pedem uma sopita, um bolinho, um café.
Com o tabaco podia vir erva e era vê-los, todos contentes, aos velhos, revivendo o momento áureo da juventude, que nunca tiveram. Os velhos não sabem ser outra coisa, nunca foram outra coisa. Alguém vai dizer o mesmo de nós. E nós vamos ripostar. Os velhos, todos drogados, farão um arraial no CBD, mais propriamente em frente à cadeia dos hamburgers, com muitos fumos e muitas flores. Woodstock nos jardins do palácio Nacional.
Um dia vão acordar e roubar os botões com coberturas de pele sintética que nós arranjámos para os imitar. Ah, sacanas, vão matar os vossos animaizinhos, que isso cá não é connosco, os hamburgers da cadeia dos hamburgers são de plástico. Assassinos das touradas, vão matar o director do SAP com o cutelo, que nós não vos fizemos mal nenhum. Dizia eu que um dia eles acordam e vão postar-se ali, naquela ruazinha que desce, a oferecer branca. Metem a medicação num cadinho e esmagam-na usando um pilão. Depois fazem bolinhos e vendem-nos, embrulhaditos em papel de prata, às criancinhas da escola primária. Ao menos estão ocupados a matar os jovens, para toda a cidade desaparecer. Ao menos não vêm novelas, nem programas da tarde e da manhã. Gentes com a 4ª classe mostram-se químicos exímios.
Os velhos vão limpar a cidade, e, quando só sobrarem eles, vão fazer o maior bolo de erva do mundo, e vão aparecer no jornal a sorrir, desdentadinhos, como quem está drogado. O repórter assusta-se,e recusa, em jeito de herói, as drogas. Os velhos não são contactados por nenhuma outra estação televisiva e morrem de overdose, ou empanturrados, quem sabe. A cidade silencia-se, o central acomoda-se, aquelas duas velhas de cabelo branco, as duas últimas, falam da filha da outra, coitada, anda de volta do cão. A cidade esvazia-se, não há nada, e nós, mortos da droga, ali na vala junto ao descampado da Igreja, Ave senhor, abençoai-nos, agora que já não estamos vivos, o suficiente, o suficiente de benção para o nosso corpinho viçoso não cheirar mal. "Sinto a cabeça a cair". A cidade está branca. Não sei se é da luz. Despimo-nos todos e rebolamos nus na relva, tratada, mas com formigas. A cidade é o paraíso hippie, nós somos uns desencantados. Os hippies não podiam estar vivos, tanta droga nunca fez bem a ninguém.

Faz favor

O estendal da mãe é maior do que o do pai. É composto apenas por duas secções, mas é mais longo. O que o estendal do pai ganha em largura, ganha o da mãe em comprimento. São diferenças significativas. A mãe pede para nos esticarmos para a frente e o pai para o lado. De facto, submetemo-nos sempre às coisas mais estúpidas. Gostava de deixar um dos dois pela falta de amor que lhes tenho, num dos dias em que amasse menos um ou o outro. São duas relações baseadas unicamente no prazer que me dá a varanda de cada um. Gostava de os deixar, de me tornar sozinha. E depois há o resto. Não é justo que eles roubem coisas de outros sítios, como alguém que traz um cinzeiro da casa do primo e o usa para impedir que a mulher, fumadora, o abandone.
O pai fica tão feliz quando estendo a roupa. Eu fico tão feliz quando estendo a roupa ao pé do pai. Só o faço ao fim da tarde. Quando corre alguma brisa, porque sei que à horas de vento a roupa seca melhor e fica com menos rugas. Assim será mais fácil depois. Sinto-me mesmo vazia e acomodada quando cheiro o jantar que a vizinha prepara e que me faz sonhar com uma vida numa casinha modesta. Era bom chegar a casa e querer só isso. Dantes, aquilo de que eu mais gostava era de ir da casa da mãe para a do pai, talvez quando tivesse acabado de escurecer, às vezes algumas noites eram boas. Sentia que os prédios se abriam e o caminho era bom. Agora fica-se preso no circuito entre uma e a outra casa. Sempre os dois entendais, disputando-me.
Nos dias de café, olho para as gentes e não gosto delas. Dantes era assim: alguém à minha frente no café. Agora sento-me na cadeira e digo que não saio de lá. Não, vim aqui construir uma memória, não me fechem já o estabelecimento; hoje ainda não se passou grande coisa. Não, não tenho cheiro suficiente. Só mais um bocado, e o baloiço está acabado.

Combinado

Na casa havia um frigorífico que fazia um zumbido infernal durante toda a noite. A rapariga mal conseguia dormir. Deitava-se cedo, para poder ficar a falar com o electrodoméstico, às escuras, deitada no sofá. Às vezes pensava que preferia sair, para não ter de ficar a falar sempre com ele: tornava-se aborrecido conversar com alguém que não saía do mesmo sítio. A imobilidade do bicho desenhava diálogos circulares, o que entristecia a rapariga – não conseguia distinguir os dias por causa da cor do frigorífico ser sempre igual. Pensava em comprar um novo, mas o primogénito, sentindo-se ameaçado, conseguia, habilidoso, desencorajá-la, convencê-la de que os novos modelos seriam facilmente corrompíveis, que haviam de se vender por dá aquela palha a qualquer outro inquilino da casa. A rapariga, criatura pouco firme, todas as noites se deixava levar, e foi ficando. De manhã era costume ter olheiras muito fundas, e o cabelo enleado, de o enredar. Quando estava fora de casa tinha-lhe muita raiva, queria deixá-lo, mas não imaginava que ele se deixasse expulsar sem protesto.
Um dia faltou a luz. Sem electricidade o zumbido deixava de se ouvir. Ela ficou atormentada, sentiu-se sozinha, teve medo. Telefonou para os senhores da companhia, mas ninguém atendeu porque eram quatro da manhã. Esperava, acordada, a morte do frigorífico. Mas toda a gente sabe que um frigorífico não morre, muito menos os que zumbem e falam. No máximo são capazes de desmaiar, coisa pouca; são gente de grande robustez, impassíveis perante as falhas energéticas mais prolongadas. Se alguém morresse seriam os alberguistas, que apodrecem e se abandonam numa poça de maus cheiros e deboche alimentar - uma grande porcaria.
Nessa noite, trocou o frigorífico pela janela – já não suportava a falta da barulho. Sentou-se num banco, abriu os estores e ficou a olhar lá para baixo. Trouxe um iogurte, não fosse este estragar-se. Os candeeiros da rua estavam ligados. A falta de luz devia ser qualquer coisa do prédio. Lá em baixo, dois rapazes desciam a rua, um às cavalitas do outro. Não conseguia perceber se diziam alguma coisa- a luz voltara e com ela o zumbido, que lhe enchia a cabeça e todo o resto de corpo. Fazia-lhe muito calor. Abriu a máquina, tirou-lhe a comida e as prateleiras. Meteu-se lá dentro. acomodou-se, fechou a porta e adormeceu.
As casas tinham um cheiro horrível, pestilento e só ficava a morar ali porque havia uma boa luz que lhe dizia ao nariz, enojado, para perdoar as noites.

Intervalo

As paredes da sala de espera são amarelas, o que me ajuda, sem que eu o saiba, a esperar melhor. O candeeiro é coisa que não existe por falta de dinheiro ou excesso de gosto pelas revistas de decoração. Só existe uma lâmpada. Para mim as lâmpadas são bojudas. O que quer dizer que uma lâmpada que não o seja me provoca estranheza. Mas a forma de uma lâmpada - não é isso que a define. Uma lâmpada é um pedaço de vidro com filamentos metálicos no interior que, quando ligado a um circuitozinho eléctrico, dá luz.
Mas não tem de ser um pedaço de vidro bojudo; só isso não faz dele uma lâmpada. Se fosse, por exemplo, um pedaço de vidro bojudo, mas sem filamentos metálicos no interior, e sem dar luz, então, seria uma jarra. Se só contasse, para se ser uma lâmpada, ser bojudo, então uma mesma coisa, que podia ser muitas coisas, podia ser também uma lâmpada. Uma coisa podia ser uma lâmpada ou uma pêra. Uma coisa podia ser uma lâmpada ou uma mãe. Uma mãe podia ser uma lâmpada. Assim sendo, aquilo ali também pode ser uma mãe. Nesta sala de espera penduraram uma mãe. O que é uma mãe? - alguém que dá à luz. Mesmo assim, ainda são diferentes. A lâmpada dá a luz à luz. Se ambas dão à luz, ambas são mães. Conclui-se que há mais mães no mundo do que aquelas que eram estimadas.
Se calcularmos o número de mães que existem no mundo, bem nos podemos assustar, porque com tanto bojo, e com meninas a viverem mais anos do que os meninos, porque sabem fazer bordados para oferecer ao nosso senhor vamos ficar com muita gente a viver connosco, toda no mesmo sítio e as pessoas não dão luz, a menos que sejam mães, não, a menos que sejam filamentos.
Morte às Lâmpadas! Morte às mães! Morte às palavras! Morte à arbitrariedade da linguagem e à significação. Sem elas tínhamos só candeeiros e saias, sem conceitos baralhados. Posso dizer asneiras, porque de facto caralho podia significar orelha e como tal seria inofensivo e podia dizer-se na rua, e alto, mesmo quando passam velhos e famílias. Mas, e se não?
Espero, aqui nesta casa, que é uma sala de espera.

A Parteira

Pedro parte os vidros do carro e lança lá para dentro um líquido inflamável com cheiro forte. Rega-o muito bem. Depois gasta o resto do líquido que existe no recipiente, fazendo um carreiro. Este carreiro tem cerca de oito vezes o tamanho do carro. Pedro pensa que esta distância é a adequada. Pega então no isqueiro e chega-o perto do início da linha. A chama propaga-se e aproxima-se rapidamente do automóvel. Ele espera, de olhos arregalados, que o fogo destrua tudo. A combustão dura pouco tempo, mas o cheiro a queimado é intenso, e ao subir, misturado com o fumo, enche-lhe as narinas e incomoda-o. Expira pelo nariz, com força, para se esquecer daquilo.
Pedro volta da fundação sempre ao final da tarde, e só depois de ter escurecido. No Verão passa mais tempo no edifício, porque se recusa a sair quando ainda é de dia. A hora a que chega, essa é-lhe indiferente porque a luz da manhã não o incomoda. Os seus olhos não reagem bem à luz meio do dia- é essa a pior. Começou a trabalhar na fundação como desenhador técnico porque foi o edifício com menos janelas que conseguiu encontrar na cidade. A luz da rua não é para ele fatal, mas não é coisa que o faça feliz.
Nunca soube de onde veio esta aversão. Descobriu-a quando tinha vinte anos, deitado habitualmente no chão da cozinha, perto da janela. Aquele era o espaço mais limpo do chão da casa. Usava uma camisola preta que encontrara no fundo do guarda-fatos dos pai. Não tinha nada por baixo, e a camisola fazia-lhe comichão . No andar de cima, alguém estendia lençóis brancos, manchados. A cozinha da casa estava virada para oeste. Pedro pensava que se tivesse um tubo que rodeasse todo o globo podia passar o resto da vida a observar os seus dias. Um homem vigiaria outro homem, que também vigiaria outro homem. Sempre o mesmo homem. Um homem que era dois.
O sol surgiu naquele lado do prédio, depois de passar a esquina das varandas do lado direito. Andava de lado e tentava chegar às janelas. Pedro imaginava o homem que estaria do outro lado do tubo. Estava deitado e usava uma camisola preta. Não podia saber se era exactamente assim que ele estava, porque não tinha tubo e havia uma parede que escondia o outro homem. Imaginava. Nisto, a luz encheu a janela da cozinha e o corpo de Pedro, que percebeu que a camisola não era preta. O homem que imaginava na ponta do tubo não existia.
Pedro tem uma vida regular. Sai do seu bairro e segue pela zona industrial, sítio acinzentado, o caminho mais curto para a fundação. Costuma percorrê-la de manhã, a pé e enquanto o faz aproveita para limpar a cabeça. A luz ajuda-o. No regresso a casa, já quase noite, permite-se um passo mais arrastado. Volta ao antigo bairro com prazer. Pensa que vai poder finalmente dedicar-se às duas actividades que, apesar da sua pouca duração, lhe enchem a vida.
Todos os dias provoca espirros a si próprio, colocando um gancho preto, longo de ponta arredondada, no nariz e rodando-o lá dentro, na parte funda da narina, até ter vontade. Depois tira-o e espera durante poucos segundos que o espirro chegue. Pedro tem por vezes de lidar com espirros teimosos, que não querem existir. A esses, Pedro impõe a luz eléctrica. Tira o gancho, e se eles demorarem mais de quatro segundos olha para o candeeiro aceso e eles são obrigados a sair. Quando faz isto, Pedro pensa na senhora do andar de cima.
Nunca dá mais do que nove espirros provocados no mesmo dia. Ao fim de alguns anos percebeu que continuar a insistir depois do nono espirro era uma tarefa frustrada: ficava com dores e nenhum deles lhe dava especial prazer. Teve de impor limites, para puder continuar a ter os seus poucos minutos diários de abstracção.
O gancho que usa é um dos que ela deixou na casa quando saiu- sempre o mesmo. Guarda-o dentro de um pequeno carro de colecção do pai. No primeiro dia o gancho cheirava a açafrão, como o cabelo. O nariz de Pedro limpou-o.
Pedro chega a casa, prepara qualquer coisa, senta-se no banco da cozinha e come com calma . Quando termina, vai ao quarto dos pais, tira o gancho do carro e leva-o na mão direita. Passa pelo seu quarto, desliga o candeeiro da secretária e dirige-se novamente para a cozinha. Senta-se, pousa o candeeiro e depois o gancho. Liga o candeeiro. Pega no gancho e coloca-o na narina direita. Esfrega o fundo. O primeiro é sempre o mais rápido e intenso. Espirra. O segundo marca o início dos estímulo mais demorados. Os quatro primeiros espirros nascem na direita, os quatro seguintes na esquerda e o último é novamente filho da direita. Quando termina, sente-se cansado e um pouco atordoado. Funga. A vida de Pedro começa assim ao fim da tarde.
Pedro regressa da fundação pelo caminho habitual. Chega ao seu bairro. À entrada do prédio está uma mulher jovem. Parece assustada quando percebe que Pedro vai entrar ali. Articulam uma boa noite pouco simpática. Pedro abre a porta e indica-lhe com a cabeça que entre. A mulher segue à frente de Pedro, de cabeça baixa.
“Sobe?”
“Acho que sim”.
A mulher parece envergonhada. Carrega no botão do elevador, e quando este chega, Pedro segura a porta para que ela entre. Pedro carrega no botão do seu andar.
“Para qual deles vai?”
“Para o de cima”, revela a mulher.
O elevador chega ao andar de Pedro. Ele olha a mulher. Ela tem os olhos parados no chão.
“Então, boa noite.”
“Boa noite”
Ele sai e larga a porta. A mulher segue até ao andar de cima. Pedro fica a ouvi-la sair e bater à porta. Esta abre-se sem que ninguém fale com a mulher. Cá em baixo não se ouve mais nada. Pedro entra e segue para o quarto dos pais sem passar pela cozinha. Hoje não tira o gancho do carro. Traz os dois. O candeeiro do quarto é quase arrancado da tomada. Cozinha. Gancho. Fundo. Primeiro. Direita. Intensamente. Oito. Todos sem luz. Abstracção. O gancho é devolvido ao carro.
Pedro parte os vidros do carro e lança lá para dentro um líquido inflamável com cheiro forte. Rega-o. Depois aproveita o resto do líquido que existe no recipiente, fazendo um carreiro. Este carreiro tem cerca de quatro vezes o tamanho do carro. Pedro pensa que esta distância é suficiente. Pega então no isqueiro e chega-o perto do início da linha. A chama propaga-se e aproxima-se rapidamente do automóvel. Ele espera, de olhos arregalados, que o fogo destrua tudo. Mas desta vez a combustão dura menos tempo do que o habitual. O cheiro a plástico queimado é igualmente intenso, e ao subir, misturado com o fumo, enche-lhe o nariz e incomoda-o. Expira pelo nariz, com força, para se esquecer daquilo. Acaba de estropiar o último carro de brincar que tem. Todos os outros foram destruídos. Pedro coloca a cabeça de fora da janela. O carrinho repousa no parapeito. Sente-se um leve cheiro a sangue. Lá em cima uma mulher grita.

Terça-feira, Maio 13, 2008

organismo

Agora há um buraco nas mãos e quando se acorda quase só se pensa nisso. Olhamos para as mãos, atordoados, à espera de não ter nada no meio delas, de quase não ter mãos.
As coisas não rebentaram. Continuam, como apêndices ou hérnias. Não vão rebentar porque se incrustaram - o perigo de explosão é quase nulo. O de desmembramento totalmente inexistente. As bombas fazem-nos parte das mãos. Mas além disso, já não há nada que seja orgânico
Acordamos e olhamos para as mãos- quistos. Nenhum buraco. Cá fora é tudo branco. Nada verde. Então damos por nós a desejar o que é pior. Desejamos que os quistos fossem apenas bombas para as podermos agitar, e esperar que rebentassem. Se agora abanarmos as mãos sentimos as bombas fixas, incapazes de nos assustar. Queremos o medo, aquele que rói, para depois nos podermos recompor. Ver como é bom o medo, bem vivo e em carne. Sentir essa carne a esfolar-se no chão, para depois agarrar os pedaços que nos caem e comprimi-los contra nós. Esperar que colem.
Havia carne e verdura, algum sangue às vezes. Nada que durasse. Enfiou-me um balde na cabeça. Vi tudo escuro. Tirou-me o balde, e ele roçou nas orelhas. Lá fora havia um estendal com roupa verde. A roupa não era direita. Não ondulava, mas tinhas curvas largas. A roupa era um corpo que se insinuava ao sol.

A criancinha e a árvore

A boca é fibrosa, difícil de trincar. Todos os dias lhe arranco ramos e todos os dias eles se recusam a sair. Exigem esforço quando os dobramos, repetidamente, pela base. Os vimes ainda estão verdes, e resistem. Hão-de ficar mais secos e mais quebráveis. O tempo que nos tira a água do corpo vai devolver-nos esse suor na facilidade em quebrar tudo o que é vivo, e que seca connosco. O calor enfraquece-nos em conjunto, afasta-nos porque as mãos suam, e facilmente podemos escorregar um no outro. A queda seria fatal. Os asfalto havia de nos esfolar. Ficaríamos cobertos por aquelas feridas finas, pouco profundas, mas longas, que se mantêm assim durante muitos dias, às quais tiramos a crosta, para as fazer durar.

Segunda-feira, Abril 07, 2008

conservar entre 0º e 6º C- depois de aberto

a técnica é totalmente quadrada, sem rebordos arredondados. branca. totalmente branca. A luz é depurada. Clara, mas fria. Está-se em território neutro. Um território vazio. Sem cheiro. A técnica não tem cheiro. As pessoas são de plástico. Parecem esterilizadas e fechadas em vácuo. Parecem alimentos conservados em caixas translúcidas de plástico limpo. Temos vontade de as trincar. De as pôr inteiras na boca e de as engolir assim. Para que fiquem entaladas no esófago, nos sintamos embuchados e acabemos por morrer asfixiados com um talo de aipo, viçoso e fresco, empenado entre a boca e a barriga. Uma agonia juvenil, vanguardista, prometedora. Uma morte fresca embalada em esferovite.
Esta podridão de alimentos e de vísceras não nos deixa garantias nenhumas. Não estabelece prazos. Não nos dá chão. Bamboleamos. Parecemos ébrios. Crianças embriagadas a verter vinho nos pés. A relva tingida. Agarramos a sandália do companheiro e lançamo-la ao esgoto. Putrefacção. Momentanemanete tapamos o nariz do outro. Deitamo-nos os três na terra. A minha cabeça nas coxas dele e a cabeça dele na minha barriga. Há um espaço entre as duas criaturas. Azul forte. Vertigens. O triângulo parece andar à roda. Estamos em plena avenida 5 de Outubro. Rodar intenso, que nos dá vómitos e nos faz rir. A luz farolenta da técnica. Bolas de luz baças, e lá em cima aquele objecto disforme e monstruoso que não tarda nada nos cai em cima. E nós a triangular, cheios de vinho. Não há separação entre os tempos. Parece tudo uma massa falciforme, vermelha. A incapacidade de distinção de tempos baralha-nos mais do que a bebida. Como nas épocas em que é madrugada e ainda não dormimos. Acompanhamos o outro na jornada. Ficamos de pé, encostados ao vidro e rimo-nos, a domir. Quando o segundo vértice chega, pega no seu martelo de emergência de autocarro e estilhaça-nos o apoio das costas. Caímos, e o segundo vértice, atempadamente, larga o martelo e agarra as costas do que dorme e escorre sangue.
acordamos a técnica. Está manchada de vermelho. Blocos vermelhos. Igualmente disformes e monstruosos. O chão ensaguentado afugenta as pessoas acondicionadas no celofane do farnel que a mãe fez. Temem que o líquido as contamine e lhes encurte o prazo ou que as torne impróprias para consumo. Seria uma vida dura, não ter função. Ser apenas um aipo, sem matriz cultural que lhe atribuísse o direito de dispor de um calendário gregoriano. Ser herdeiro de Constatino pode, em certas circunstâncias, ser útil. Demarcação. Arrumação. Conservação.

Sábado, Março 29, 2008

ocupação de beijos omissão do recheio molho branco molho castanho o muro que cai e que se apanha ocupação de sulcos socalcos covas de cama a madrugada da revolução que come iogurtes trinca a circulação mata com a almofada a dispersão imensa e informe o ponto ocupação de caminheiros são as circunstâncias que nos ocupação

Quinta-feira, Março 27, 2008

Mamíferos

Pedro abre-lhe a boca húmida e passa o interior dos dedos pelos dentes dela. Depois sopra lá para dentro. Ela aspira o fumo. Pedro pergunta a que é que sabe. Açafrão.

Aperta a língua entre o polegar e o indicador e puxa-a. Está seca. Tenho uma sede forte, Pedro. A língua, mais do que seca, está inchada. O inchanço é consequência da sede. Por isso o inchaço parece mais forte do que a sede. A língua insufla. Rega-me a boca, Pedro.

Pedro passa-lhe o dedo pelos incisivos. Depois submerge a mão no líquido. Passa-lhe a mãos pelos dentes. A boca humedece-se outra vez.

Guerra

Há pessoas enterradas- alguém as enterra. Essas pessoas põem as mãos de fora. Atentam nos sons que existem fora da terra e, quando alguém passa, os enterrados puxam-nos para o sítio baixo onde estão. Não há maneira de uma pessoa fugir. É repentino e violento. Um puxão seco. Incisivo.
O número de indivíduos enterrados aumenta rapidamente. São agora mais do que os não-enterrados. É difícil sobreviver fora da terra. Acabarão todos debaixo dela. E depois de todas as pessoas terem sido puxadas, não vão poder saber que não há mais ninguém para puxar. As mãos, que agora pululam e rasgam o solo pontualmente, acabarão por se tornar pedras, tubérculos, estacas- plantadas na terra, abertas, atentas, alienadas, à espera de um não enterrado que por lá passe, e que se deixe puxar.

Lama

encho com ela a boca sucede também é outro dos meus recursos subsistir um momento com isto a questão é se engolida me alimentaria e perspectivas que se abrem são bons momentos

Samuel Beckett, Como é

FMI

Terça-feira, Fevereiro 26, 2008

amor de salmão de camisola canelada

Tinha fartos cabelos vermelhos. Revoltos. Esfregava-se no chão, muito lânguida, de olhos fechados. Fiquei com vontade de lhe trincar os pés e de lhos lamber depois. Puxei-lhe o braço. Pedi-lhe em silêncio que se levantasse e que saísse dali: riu-se e disse que não; pedi-lhe outra vez. Tinha um cheiro parecido ao que a mãe transpira quando acorda, um hálito quente e acre.
Puxei-a, agora por um pé. Disse-me que também tinha força e que não queria sai dali. Eu ri-me a não lhe larguei a perna. Ela usava o peso do corpo para impedir que eu a trouxesse para baixo. Encostei-me à madeira e apoiei os cotovelos no estrado. Fixei os pés para a manter estável. Tive medo de a magoar, mas parecia tudo muito real.
Depois ela começou a escorregar e eu agarrei-a novamente pelo braço. Puxei-a, e metade daquele corpo ficou suspenso no ar, com o pescoço tombado. Assustou-se, deixou escorregar os pés e encolheu-se no tapete. Obriguei-a a levantar-se. Agarrei-lhe os cabelos vermelhos. Estava suada. Juntei-lhe o cabelo no alto da cabeça e disse-lhe que rodasse. Empurrei-lhe o ombro para que o fizesse. Rodei-a eu. Os cabelos repuxados pareciam menos bonitos e a testa, esticada, dava-lhe um ar desesperado.
roda!, roda, se não eu puxo Perguntei-lhe quem era eu. Rodei-a. A minha mão a prender-lhe os cabelos fê-la
gritar. larguei-os e ela caiu.
tapo-lhe os olhos. roda. roda e grita o meu nome ruivo e verde.
tapo-lhe os olhos e digo-lhe para os abrir. abre os olhos e grita-o (ruivo e verde agora). vê o que sou eu. tapei-lhe a cara e disse-lhe para rodar. estava suada e chorava.

Tropical Húmido

amolador

Compraram uma faca de cozinha nova, com um cabo de madeira clara. Cortou-se quando estava a picar o alho para o refogado do arroz.
Agora o penso rápido que pôs cheira a pimentos e ao ler isto imagina-se num sítio muito rústico e badalhoco.

Procissão

que bom que era

Quando me for embora será certamente sexta-feira ou domingo; espero que não seja outro dia. Não quero que esteja ninguém em casa. Vou deixar tudo em pantanas;dia de muito abandono, em que se fica de pijama sem tomar banho.
Vai haver loiça suja, um amontoado de roupa para arrumar em cima do sofá, um chão bastante porco e as coisas estão nos sítios. Se não for assim, não me vou embora. É essencial que o fogão esteja por limpar, as camas por fazer, mas já destapadas, e as janelas abertas, a fazer corrente de ar. A roupa da máquina vai ficar por estender e vai haver livros abertos com a lombada para cima.
Hei-de estar descalça e a luz de um dos quartos acesa. É então que eu saio.

Quinta-feira, Janeiro 31, 2008

Lost Highway

O caracol é um animal mal tratado, um pouco mal visto.
Eram coisa de duas da madrugada quando a rapariga deixou a casa.
Estava sóbria, um pouco cansada e tinha frio, apesar de ser Verão.
Seguiu pelo aqueduto e molhou as mãos nos corrimãos húmidos.
Os passos eram largos, ritmados e algo violentos. Os olhos semicerravam-se, confiantes na rectidão do passeio.
Naquele lado da rua havia mais candeeiros, por isso o chão estava mais visível.
A rapariga apercebeu-se de que este estava cheio de caracóis. Abrandou o passo.
Pareciam seguir todos na mesma direcção que ela.Receou ter deixado algum morto para trás.
Desviou-se dos bichos.
Era difícil dada a pouca luz e o muito sono.Eram cada vez mais. Enveredou por umas escadas de terra batida.
Apressou-se a ir para casa.
Corria lenta a noite. Corriam lentamente os caracóis.

Skip

As noites claras voltaram.

Segunda-feira, Janeiro 07, 2008

Vamos chamar-lhe pó. Pó tornou-se parte da casa no final de março.
Nunca o tinham visto por cá e achei por bem perguntar-lhe quem era e o que queria daqui.Pó foi cordial e entusiasta. Parecia muito interessado em ficar e escreveu-me uma nota de boas vindas, como se tivesse sido eu a chegar. Trouxe duas músicas: as primeiras duas músicas de pó nunca ficaram para ele. Todas as outras eram músicas de pó, mas não as duas primeiras. Para essas, ele havia sido apenas o estafeta. Não sei se se agradecem entregas destas.
As duas coisas enraizaram-se e passaram a dominar a casa nos dias seguintes. Alastraram-se progressivamente pelas paredes e fizeram questão de nunca mais sair de lá.Pensei dizê-lo a pó, partilhar aquelas manchas e perguntar-lhe se tinha acontecido o mesmo com ele. Mas quase nunca o vejo. No entanto, os poucos encontros que temos são especialmente calorosos, mais do que habitualmente costumo permitir. Não que tenha vontade de que isso aconteça. Arrependo-me até, depois de ver pó partir. Mas de todas as vezes que o vejo na parte de baixo da rua, à espera porque me atrasei, sinto uma obrigação imensa de me desculpar, porque sei o quanto o pó gosta de mim, e o quão feliz fica de todas as vezes que lhe dou um bocadinho de dia.
O pó gosta de manga. Não lho censuro. Às vezes quero não lhe falar, quase me repugna: ele e aquilo que sou com ele. Penso que nunca mais vou ser atenciosa, muito menos afável. Irei tratar pó como se trata qualquer pessoa. olá. olá. como vai.
As músicas tornaram-se parte de qualquer outro indivíduo, o que é injusto porque foi pó que mas mostrou, mas fê-lo numa altura em que pessoa alguma me devia ter mostrado o que quer que fosse. Há alturas especialmente férteis e abertas, de onde saem sumos e líquidos amnióticos que sujam bastante a roupa. Não durmo quando estou molhada. Quando se está sujo é difícil dormir. Quando não se dorme fica-se rabugento e mau. A água e a sujidade são inimigas da bondade e dessas coisas melosas e autocolantes e lambuzadas. Ninguém lambuza ninguém quando o objecto da lambuzice é um monte de caca. Chama-se nojo. É uma sensação fortíssima, e, possivelmente, aquela que mais dificuldade temos em ignorar.
Às vezes tenho nojo do pó, outras vezes lambuzo-o. Sinto que temos uma relação muito ambígua. Não sei como é que pó vê as coisas. Nunca me ocorreu perguntar-lhe. Receio ser desbocada e vomitar-lhe a verdade toda em cima.
Acho que ele era capaz de deixar de me falar e se isso acontecesse sentia-me mal. Só gosto de pó quando ele não me liga, por se ter esquecido. Quando ele liga acaba-se o amor. Sou muito egoísta e desequilibrada no que trata a este tipo de relações. Só no que trata a este. No que trata aos outros não.
Às vezes tentava pensar nas duas primeiras músicas e ligá-las ao pó: queria mesmo, porque sempre senti que lhe devia isso. Mas nunca será possível. O pó mostrou-me duas coisas maiores do que aquilo que eu podia ver. Assustei-me. Pó devia saber que comida a mais engasga criaturas ainda pequenas. É a lei da vida.
Tenho apenas alguma vergonha de lho dizer.

Domingo, Janeiro 06, 2008

Coiso

Morreu o Pacheco.

Terça-feira, Dezembro 11, 2007

S/ Loja

Importante: Entregar a ardósia à mariana.

não gosto de números por extenso

Por momentos, o meu telemóvel ordenou aleatoriamente as mensagens recebidas. Tenho cento e oitenta. Apagar mensagens é muito doloroso para mim, sobretudo aquelas que são vulgares. A minha mensagem mais antiga data de cinco de setembro de dois mil e seis. Refere vagamente uma casa, nove euros e contém a interjeição hmmmmmmm. É uma mensagem estúpida, como aliás, todas elas. E por isso mesmo hei-de guardá-la, tal como faço com as outras Não são coisas particularmente importantes, e é raro lê-las: só o faço, quando isto diz "sem espaço para novas mensagens". Aí sacrifica-se a vida.
Houve um dia em que a Belinda me mandou uma mensagem na aula de português, perguntando se eu gostava de trilogias. Eu abanei a cabeça na outra ponta da sala. Ela mandou outra, a perguntar porquê. Eu balbuciei que todas as trilogias que tinha lido eram livros infanto-juvenis ou coisa parecida. Ela disse mais qualquer coisa: censurava o meu preconceito. Podia procurar no telemóvel quais foram as palavras exactas dela. Mas isso levaria muito tempo e tenho trabalhos maiores em mãos. De qualquer forma, aquilo não me convenceu, e continuo a pensar que as trilogia são coisas da minha infância e pouco mais. No entanto, a mensagem proselitista não foi, de todo, inútil. Acho que a partir daí principiámos as nossas conversações. E daí vieram coisas bem boas, que não me parece de bom tom referir, por serem privadas e ridículas.
Em breve terei de comprar um telemóvel novo, porque este está pela hora da morte. Tem uma faixa em branco mesmo no meio e é frequente não saber quem me está a ligar. Em princípio, entrego-o para retoma e compro o mais barato e maneirinho, até porque nunca me agradou dar muito dinheiro por um telemóvel. Se o entregar na loja ou se o devolver ao dono, terei de me desfazer de coisas das quais só me poderia lembrar se tivesse as cento e oitenta caixas sempre à mão. Assim sendo, vou remeter importantes episódios de espera no café para o lixo. Mas, como diz o professor de antropologia, o esquecimento tem um papel fundamental na organização da memória e, consequentemente, na criação da identidade. Isto no fundo não passa de um auxiliar de memória, uma espécie de reforço vitamínico para ter miolos e olhos saudáveis. Acho que ainda não tenho idade para essas coisas. Deve haver formas melhores de me identificar.
Queria só saber o que é que ela disse sobre trilogias. A única mais crescida que li foi a de Nova Iorque.

Segunda-feira, Novembro 19, 2007

Acabisbaixamentos das árvores







queijo

17.59

Nesta altura do ano, o rio por onde se passa quando se volta está mais claro do que o resto. As árvores à volta parecem recolhidas na água por estarem pouco nítidas cá fora. Alguns metros à frente há uma casa branca, com um portão de correr azul. Quando éramos mais novos e mais pequenos a casa funcionava como café e vendia gelados da cammy. O meu preferido era a cabeça da pantera cor-de-rosa. Sabor a morango.
A seguir está o caminho-de-ferro e a estação. Quando o autocarro passa ali fico com muita vontade de pedir ao motorista que pare e que me deixe ficar à espera do comboio. Sempre gostei mais do comboio porque me parecia fascinante ver tudo escuro à volta, sem luzes de estrada nem casas a passar. Uma vez viemos três. O márcio, o meu padrinho e eu. Entrámos em Santa Apolónia. Lembro-me de ser pequena e de acordar enroscada na parte de trás da última carruagem, em cima de uma espécie de vão, de os ver pegar nas malas e de sentir um dedo esborrachar-me o braço para me obrigar a levantar.
No verão os campos daqui têm uma certa gradação de cor, as coisas distinguem-se. Volto de carro ao final da tarde e ainda é dia. Agora é fim de tarde também e já pouco consigo ver. A paisagem é muito hermética, não há cores, só vultos e contrastes. Não existimos numa estrada ao lado de um campo com árvores. Existimos nós de um lado. E tudo o resto do outro. Só há cinzentos, pretos e azuis.
As únicas coisas com luz são as mãos descobertas e o quispo da mais pequena. Reparo que as unhas dos meus dedos anelares, são de quando em vez, bastante mais longas do que as outras.
O Astérix e o Obélix aprenderam os seus medos com as árvores alentejanas. Viram-nas e perceberam que o céu também havia de cair em cima deles. São árvores de aspecto abatido, cabisbaixas, com o peso do azul em bloco por cima delas. Um céu barra de tinta da china caiu aqui e esborrachou-as. É difícil dizer como são. Parecem copas volumosas passadas a ferro. Ou massa de filhós quase estendida.
Naah. Não sei explicar. Têm o tronco que se mantém igual. Cresce, aliás. Mas a copa ao invés de se expandir a partir do centro e ir aumentando de diâmetro, achata-se e transborda para os lados como o excesso de queijo que fica nas tostas e que escorre para fora. Tudo aqui é achatado e transbordante. Não sei como é que tanta matéria não inunda o campo inteiro e molha o alentejo que este ano, diz a vizinha, está tão seco.
Queria ter começado isto, falando de uma casa à entrada da vila que mais parece deslocada do realismo fantástico sul-americano. Mas agora estamos quase na próxima cidade. Já não consigo dizer mais nada. Eu e a noite lá fora, uh, uma desolação. Mas a mais pequena encosta-se e dormita. Eu bebo ice tea para não tossir. Amanhã é outro dia.

Produção Industrial

O expresso segue rumo ao alentejo.
Os cortinados e os encostos de cabeça são vermelhos.
Miguel.

Expresso

A minha irmã vira-se para trás no banco e pergunta-me se me pode mandar um kolmi.
Eu pergunto-lhe para quê.
Ela diz-me para que sim.
Encolho os ombros.

Estou a tornar-me racional.

Segunda-feira, Outubro 29, 2007

Glory Box

Uma caixa cheia de coisas.

O moral

Há uma perestroika para ser feita desde o princípio de verão.
Não vejo maneira de ela sair, não vislumbro nada.
Por mais que tente, não consigo.

Domingo, Outubro 28, 2007

Karma

Tenho o computador de volta.

Domingo, Outubro 21, 2007

Bairro do chinelo às três da tarde

A minha vida é regida por ciclos, tendo cada um diferenças aparentemente muito significativas. normalmente as transições estão associadas a mudanças de estação, a festividades e aos início e interrupções de anos lectivos. As durações são variáveis. Oram duram muito e é difícil desprender-me de um deles, ora são poucas semanas pelas quais se passa de uma assentada e sem a noção de que está acontecer algo realmente importante. Depois das fases de estagnação vem a expectativa desmesurada que se alimenta de dias muito ocupados e despretensiosos.
Curiosamente não gosto menos dos tempos maus que dos bons. Por mais ridículo que seja, tudo o que me ficou para trás me parece sempre mais adequado ao que queria do que aquilo que está a acontecer agora, independentemente de ser melhor ou pior. Os meus dias só são apreciados depois de já terem passado, parecem sumo que precisa de levedar, ou massa que necessita de uma hora de descanso. Talvez sejam dias verdes a precisar de calor, que só encontram quando já caíram, como aquelas bananas que se compram verdes porque se desconfia da fruta muito madura do monhé e que por isso se enrolam em folhas de jornal, como a avó ensinou, para não fazer mal a quem as come. Os meus dias compram-se em caixas de plástico, vivem-se e depois embrulham-se em jornal. Depois de desembrulhados são então fruta boa de se comer, ainda que não fosse grande espingarda depois de ter sido apanhada.
Quando começa Outubro oiço sempre a mesma música, esteja o meu humor como estiver. É uma tradição desde há dois anos. uma tradição jovem como eu...longa vida à tradição! Depois disso o humor de começo de Outubro volta e consoante o carácter mais ou menos maravilhoso dos meus dias, esse deixa-me a mão vai-se acentuando devagar ou mais depressa respectivamente, até ser insuportável. Atenção, não é um largue-me não me mace irritado, tão pouco grosseiro. É mais um vá lá , deixa-me estar que estou tão bem. Não que esteja, mas explicar isso a alguém daria muito trabalho. Hoje acordei assim e como sabia que não havia meteorologia que me acompanhasse vesti roupa a mais para o calor que estava o que me deixou tão alienada como se estivesse a chover. Nestes dias prefiro as maçãs pouco rijas, não farinhentas, e gosto de as mastigar vagarosamente, trincar e fazer de conta que é pão para que os incisivos se enfiem devagar e esmaguem em vez de cortar. Este ano querem à força toda contrariar-me e fazer-me voltar à razão mas não pode ser, é um ano ímpar, os anos ímpares são assim e nada feito.
Há ainda assim uma esperança inegável trazida de coisas que não são já palpáveis em lado nenhum e que por isso mesmo me levarão talvez por volta do meio de Janeiro a dar um grande baque de rabo no chão. No fim de Março talvez seja tudo melhor e vá dar um passeio ao chinelo.
Estou há meses sem conseguir fazer nada de novo, ou pelo menos a tentar fazer algo com estruturas diferentes e por diversas vezes achei que a mãe se ia calar, não pelo que dizia , mas pelo forma cada vez mais homogénea como o dizia. Pensei deixá-la comer as bananas verdes embrulhadas no jornal e fazer com que hibernasse assim. Parece que não é assunto de grande relevância, se não já o tinha resolvido.
Há coisas que ficam a remoer muito tempo sem que as consigamos ignorar, mas que no entanto não se mandam embora. Seria pouco educado mas poupava-se imenso trabalho. Gosto muito do cheirinho do desodorizante dove de tampa azul, mas foi preciso a minha mãe ir comprá-lo para eu me recusar terminantemente a usar o verde. E o cheiro do verde ter-me-ia remoído mais umas semanas se não houvesse uma alma que esconde uma incapacidade de fazer listas de compras por detrás de uma bondade meio inventada, não totalmente desonesta.
Gosto de saber das coisas que me fariam muito mais feliz se não existissem ou se eu ao menos eu não as soubesse, mas era capaz de ficar mesmo chateada se não me as contassem. Acho que estou a começar a ter alguma tendência para as recusar, não querer sequer ouvi-las. É bastante mais fácil. Tal como teria sido mais simples ir comprar directamente o da tampa azul em vez de me chatear com o verde. rrr. que impulso estúpido de usar o verde e de não o saber deitar fora ou não usar.

Hoje devia
preferir chinelos a ténis de atacador já que esteve tanto calor. Mas se é outono acho que tenho o direito de me comportar conforme aquilo que devia ser o outono e não aquilo que supostamente é o verão. No outono caem sempre folhas por mais calor que esteja. Logo, amanhã compro o de tampa azul, resolvo os meus problemas que me moem que nem farinha e uso um chinelinho mais fresco até que o hemisfério inteiro me dê razão e venha para a rua como deve ser.

Bairro do Chinelo

A rapariga esperava connosco na paragem. Ou ao invés, nós esperávamos com ela. Eu ficava sempre no meio dos dois, como uma mãe que toma conta dos dois filhos. Não era muito cedo. Talvez um meio de tarde já no fim. Tínhamos os dois de ir embora e ela não tinha ainda sítio para onde ir. Perguntei-lhe se queria vir. Ela disse que não. As pessoas atarefavam-se com sacos e coisas e crianças e pesos na cabeça.
Vem, dizíamos nós. Está bem. Só até ali, para vos fazer companhia. Seguimos os três comigo no meio.
Quando chegámos á esquina ela parou e pediu muitas desculpas. Encostou-se a mim e abraçou-me e tocou com o nariz na minha cara. Esfregou-o como uma cria ou como se o quisesse coçar. Posso dar-te beijinhos? Podes. Encheu-me então de beijos na cara.
Depois os dedos dela encolheram-se nas covas dos meus braços e tremelicaram. Cócegas. A rapariga fazia-me cócegas e eu ria, ria muito contente. Ela abraçava-me e esfregava o nariz na minha cara como se tivesse uma comichão que não tinha fim e que aumentava de tanto mais ela coçar e ria também, tanto que eu tinha vontade de lhe esticar ainda mais os lábios e lhe dar pancadinhas nos dentes com a ponta das minhas unha
Escureceu muito depressa e a rua enchia-se de azul. Aquela gente atarefada olhava para nós com um ar assustado e as crianças espreitavam por entre os braços das mães e perguntavam quem eram aqueles meninos ali a rir.
Os dedos da rapariga eram terrivelmente bonitos, não muito esguios, mas perfeitos com unhas entre o quadrado e o rectangular, direitas e harmoniosas. O nariz era fresco mesmo àquela hora do dia, como se ela tivesse acabado agora mesmo de tomar um grande banho de mar e os braços, os braços pareciam árvores, ou ramos, areia em dias de vento, daquele que cobre a toalha e que quase nos deixa soterrados.
O nariz, que de tão fresco me dava vontade de chorar, como quando comemos limão muito ácido e a nossas pálpebras tremem sozinhas, limpava-me a cara toda e os olhos
Não tivemos aulas nesse dia e não me lembro do que fizemos até ser aquela hora de fim de meio de tarde. Lembro-me de a ver de cabelo atado e um casaco meio castanho, as mãos nos bolsos e os olhos para baixo no meio deles. Talvez tenhamos ido ao café e conversado sobre o tempo e os nossos planos juvenis para um futuro promissor. Nessa manhã tinha chovido e entrámos ensopados no café. Revoluteava uma mosca e ela sacudiu os dedos no ar ao tentar matá-la enchendo o meu lado da mesa de migalhas e pediu muitas desculpas, desculpas outra vez, como ia fazer depois, no final da tarde dessa manhã. Desculpas de ombros encolhidos, sérias mas de sorrisos insolentes, como se tivesse um imenso prazer em fazer coisas pouco agradáveis só para se poder desculpar a seguir.
Depois não sei, não me consigo lembrar. Só dou por mim no meio dos dois com ela à espera de ir para casa e as mesmas crianças e as mesmas mães. E agora que tento saber o que fizemos entre o café com chá da manhã e o nariz gelado dela na minha cara, não me consigo lembrar de nada e na minha cabeça só tenho um enorme vazio e o cheiro dela a encher-me as memórias de todas os colegas de escola com quem brinquei e de cujo nome me esqueci, como se ela me abraçasse só para que o seu cheiro catalogasse os nomes deles e as minhas brincadeiras e me ocupasse para sempre a vida. Seria então o cheiro das coisas pequenas que se nos agarram à parte de trás das orelhas e ficam lá escondidas anos a fio até incharem com água e zumbirem durante à noite nos nossos ouvidos doentes e cansados. Vou inquietar-me na cama com a reminiscência das minhas otites e o desejo incontido de as mandar embora sem puder puxar os ouvidos por ter medo de que com eles viesse tudo aquilo que não tive e que inventei.
(O terceiro menino olhava para nós enciumado e com ar de quem nos queria bater. Não podia bater-nos. Não podes se não ela fica zangada contigo. Não podes!
"Quero o teu nariz na minha cara, quero o teu nariz a esfregar-se na minha orelha, já!" E dava pulos de raiva e batia com o pé no chão e gritava. Aaaaaaaaaaaah quero o teu nariz. E nós ríamos. E os dedos dela nos meus braços. Nas covas dos meus braços e a tremelicar.cócegas.eu a saltar contente e ele a saltar cheio de raiva e de tudo o que era de chumbo dentro dele. Não tens os dedos dela. São meus, são meus e eu nem os queria. Tu querias os dedos dela e por isso sou eu que os tenho agora e nada do que querias é teu. Não tens nada por mais que pules e grites e sejas mau como sempre.)

Sábado, Outubro 20, 2007

Efeitos secundários do Brufen: ver posologia

Comprámos um narguilé no último dia da festa, quando já quase toda a gente tinha sido empurrada para casa pelo cansaço. Tentámos regatear com o vendedor, mas ele não foi de modos e disse que ou queríamos o cachimbo assim ou então nada. Pacote! Com uma mui rebuscada manobra de publicidade, ele tentou incluir coisas no conjunto vendido, e dar a tudo um preço que mais não era que a soma dos preços do cachimbo e dos outros apetrechos subtilmente anexados e que nós podíamos perfeitamente comprar à parte sem que isso fizesse qualquer diferença. Ele bem nos queria fazer acreditar que aquilo podia ser um belíssimo negócio para nós, mas a malta, inteligente e desperta para a resma de gandulagem que por aí anda, não foi na cantiga. Mas é sabido que em terra de cegos quem tem olho é rei e o facto é que ou comprávamos o narguilé ali ou tínhamos de esperar pelo dia seguinte e isso sim, seria uma tristeza. Fizemos-lhe então a vontade

Voltámos depois para as tendas, estendemos algumas mantas e toldos no chão. Já quase não havia tendas, era tudo um amontoado de lixo, quase um aterro. Tivemos de pedir ajuda aos moços da tenda do lado porque não sabíamos como furar a prata nem como pôr a água nem nada. Não sabíamos nada. Chamámo-los e eles trataram disso por nós. Agradecemos, trocaram-se uns sorrisos educados e só.

Fumámos aquela goma com cheiro a maçã, entretivemo-nos a fazer bolhas na água e a engasgar-nos com cinza.

Amanhã seremos apenas três gatos a desmontar a casa e a enrolar as mantas de hoje à noite. Vamos apanhar enlatados do chão para o nosso almoço e vestir roupas, que como nós, estão sujas e peganhentas. Não haverá grande réstia da minha alegria guardada para não dar nas vistas. Mas amanhã vou-me embora feliz. Não porque esteja especialmente efusiva ou ululante. Cabe em mim a alegria toda incontida dos outros e apetrecho-me para os próximos tempos com os saltos abraçados ao som dos tambores. Encho de fumo o peito e de quietude o resto. Agora antes de ir dormir fala-se de uma ou outra coisa importante, apenas o que é possível referir. Julgo-me aconchegada, se não for isso é sono.

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